Todo mundo odeia o RUBRO FC

Todo mundo odeia o RUBRO FC

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Todo país tem um clube que o resto do país aprendeu a odiar. Em Aldará, esse clube é o Rubro F.C — e isso não aconteceu por acaso.

Neste romance satírico, Ely Amparado pega o bloco de notas, senta na arquibancada e desmonta, peça por peça, a máquina mais bem financiada do futebol de Aldará: uma instituição que não fabrica apenas vitórias, mas sentimentos — e que convenceu um país inteiro de que sua grandeza sempre foi destino histórico, e não linha de orçamento de marketing.

Da arquibancada do Templo dos Cem Mil, onde a "emoção espontânea" da torcida é anunciada pelo locutor um minuto antes de acontecer, aos camarotes envidraçados onde o gol se comemora com brinde de espumante, o autor segue uma temporada inteira do Campeonato Nacional das Províncias, capítulo a capítulo, engrenagem por engrenagem:

— a cobertura da Rede Suprema de Televisão, que decide antes do apito final para qual rosto em lágrimas a câmera vai cortar;— o fim da velha vaquinha entre os clubes grandes e o nascimento da liga de um só;— o hábito institucional de se dizer perseguido enquanto ocupa o centro do palco;— o departamento jurídico mais temido do que o ataque, que nunca perde um recurso;— a conversão da paixão da Nação Escarlate em assinatura mensal com níveis de fidelidade;— a administração criativa da própria história, porque quem escreve o passado marca dois gols de vantagem;— e a política interna do clube, onde presidente é Deus em março e réu em agosto.

No meio do caminho, um bestiário imperdível: o gênio que some na hora certa, o veterano que a torcida ama de olhos fechados, o reforço caríssimo que se machuca descendo do avião e o garoto vendido antes de aprender a dirigir.

Ao redor, o elenco de quem odeia — cada torcida com seu sotaque próprio de ódio: a Verde Imperial, que prefere balancete a discurso; a Fiel Massa do Operário da Capital, que inventou metade do vocabulário da arquibancada e vê o rival levar o crédito da festa; o Tricolor dos Costumes, guardião de uma tradição que definha no retrovisor; e o Clube Nobre, com mais taça de porcelana do que de campeonato. Nenhuma delas está errada. Cada uma olha para um pedaço diferente do mesmo animal.

Este não é um livro de paz. Não termina em abraço, não descobre que "no fundo somos todos torcedores" e não recomenda que aprendamos a conviver. Termina exatamente onde a temporada termina: com o Rubro F.C de novo em festa, o discurso de sempre no microfone de sempre, e o resto do país anotando, para o ano seguinte, mais um motivo na lista.

Uma sátira afiada, engraçada e desconfortavelmente familiar sobre futebol, poder, mídia e a arte industrial de fabricar grandeza. Para quem torce contra, para quem torce a favor — e, sobretudo, para quem nunca parou para perguntar quem escreveu o roteiro.

Vamos ao Templo. Leve casaco. A recepção costuma ser fria só para quem não veste a cor certa.

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